Café com Canela


adonias filho/ lars/ von e grael/ ouriços/ estações/ a lua me traiu/ vaneirão/ voar simples plegoroso/ caetano/ tropicália/ acordes dissonantes/ mesa do jantar/ pombo correio/ pomba gira/ altar de Za

"Look up, I look up at night, / Planets are moving at the speed of light. / Climb up, up in the trees, /every chance that you get, / is a chance you seize.
How long am I gonna stand, with my head stuck under the sand? / I'll start before I can stop, before I see things the right way up.

All that noise, and all that sound, All those places I got found. / And birds go flying at the speed of sound, to show you how it all began.
Birds came flying from the underground, if you could see it then you'd understand."

                                                                                                                                                       Apenas apanhei na beira-mar               Há meros devaneios tolos
                                                                                                                                                                                                                     A me torturar
                                                                                                                                                       Um táxi pra estação lunar                    Fotografias recortadas em jornais de folhas

"Eu identifico agora quando uma recordação supera o cumprimento. Imagens flutuam naquela bobeira de estar ali contigo. Passamos ao largo delas como banco de shopping. Elas nos enxergam e esperam o nosso retorno. Lembrar é voltar para um lugar que nunca abandonamos. A gente só confessa que lembra observando duas vezes o que esqueceu. Sei quando uma lembrança faz uma estreia. Tenho que parar onde estiver, curvar-me diante do pânico evocativo. Amo o que achava que não era meu. Apresso em comprimir os lábios prendendo o ar recente das palavras. Lembrança mesmo não foi sublinhada, avisada. Lembrança mesmo tem importância atrasada. Pequenos ensinamentos que ninguém me dizia justamente por serem pequenos. As hortaliças dos hábitos. Minha namorada não me diminui para ser generosa. Explica o que ninguém quis. Talvez porque muitos deduziam que seria um absurdo desconhecer. Talvez não facilitasse a curiosidade. Talvez encarne um completo retardado para atitudes óbvias. Desenroscar um vidro de conserva me assusta mais do que correr uma maratona. Sou incompetente diante do abridor de lata, do alicate, do saca-rolha. Talvez simbolize um problema sério dos casais. Pela ânsia de grandeza, não aceitam desperdiçar a memória com banalidades. Forçados a impressionar até na hora de acordar. Para gerar valor, seguem o comportamento de que devem falar coisas fundamentais o tempo todo. O adulto pode regressar para a ignorância sempre que precisar. Ela me explicou que não posso deixar o laptop ligado na eletricidade senão vicia a bateria. Não desistia da tomada para manter 100% de carga quando saísse para viajar. Sacrifiquei dois computadores pela desinformação. Encontrei um risco no vidro dianteiro do carro. Já estava reclamando dos guardadores. Ela me explicou que é resultado do uso do limpador sem água e espuma. Tem sentido. A marca é uma meia-lua, bem no momento em que o aparador retorna. Fracassava para fechar a mala amarela. Inchava as têmporas para negociar quais pares de sapatos entrariam no bote de salva-vida. Ela verificou que não soltava o forro. Arrebentei várias costuras por não sondar a existência de um zíper interno e discreto. Escovava os dentes em movimentos horizontais. Rápidos e constantes. Com a pressa de bochechar. Ela me explicou que deveria articular gestos verticais e seguir o desenho das felpas. E me explicou a recolocar o elástico nas calças, a regular máquina de lavar, a cumprir nó de marinheiro. Eu lembro do que não preciso mais e estou salvo de mandar em mim." - Carpinejar

Barro que me Consome o Óleo (por Ariel Nogueira)

Ontem fomos na gincana da rua. lá onde pulávamos amarelinha. arrancávamos a tampa do dedão. e jogo bola de gude pra ver se vendo meu cantil ao próximo mendigo. ou se compro um pedaço de pão. É que a água da mina está barrosa. e o pulo da carteira no riacho fez da queda uma aposta. Espresso. são formas de bolo. um quarto cheio de sujeira. podres campanhas. rótulos. públicas esferas de couro. trabalhando o sal. pra viver longe de conflitos. Expresso. um apito no fim do túnel. fiquei gripado. de tanto andar nu na casa de dona joaninha. jogo bola de gude pra fuder com o dardo. o alvo de centro ridículo. e o violino daquela esmeralda. o gramofone de meu pai. são instrumentos do prazer amarelo. um prazer bom de nespresso. encorpado. raspar a barba em pleno campo, pra ver se a grama atiça e aumenta o atrito. roer unhas. foi um panfleto que li. um panfleto de cordas. colado na árvore. ter na barba cabelos cumpridos pescados na noite anterior. toma atitude sua besta. encosta na parede de pedra e grita. pega no vácuo o sufflair de tua saliva. pulsa. toca, canta, coça. E Graciliano me disse sobre as crianças, a prisão e o cão. o cão do vizinho é territorialista. pavor de chiclete engolido. mastigado. chiclete colado no cabelo da senhora mariana. Llévatela, si al fin y al cabo piensa mucho en ti. e existem situações quando a única perversidade que sobra é ter medo. tipo andar de avião. sonhar com o voo. o pouso da ema. o ninho que balança pelo timbre da peba que canta por baixo. filtrar as cores. virou de costas. sentados. e como tirar a calça. uma flauta naquele verde de minha terra. choveu. o barro abraçou a ti pela quarta vez. construiu e desconstruiu castelos. pediu bis. o barro que apitou pro maquinista. o diesel de uma teta da vaca. o leite da outra. mascar chiclete no semáforo. mascar chiclete ao dar um pé no amado. estourar bola na cama. invadir o céu com galhos. mas. a bruxa violeira ainda caminha ao meu lado. a sombra do mágico que escondia cartas na manga. escondia o nome no punho. a sombra do mágico que aprendeu a puxar raiz de amarelo. parece que puxei do pé a eternidade. ali tem um feeling. um riscado de barro. ande com cuidado em palavras riscadas. faca amolada em um copo vazio. vazio de ar. e um acorde mais barroco.

 

Pra Onde Vais - Polônia (por Fernanda Valério) / Mulungu no Sertão - Ceará, (por Jin Lee)


Vixe. Aí foi publicada uma trilogia. a parte de uma trilogia inacabada de um pensamento rápido. é que vem da terra, da cidade e da Lua. E vale a pena conferir - anda compondo e estrelando -  Dan Nakagawa, aqui e ali (num curta com a vocalista do Cansei de Ser Sexy). Valeu pelas visitas floradas, torradas e cansadas. Pelas fotos e amizades. E sempre que sentar ao pé da mesa, no tatame ou no chão de estrelas, lembremos da Tropicália. Por quem anda distante e volta sempre que precisa. Beijos e Abraços Caneleiros, Otavio.



Escrito por Otavio Ranzani às 15h42
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Otavio Ranzani
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BRASIL, Sudeste, Homem, de 20 a 25 anos

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